terça-feira, 17 de março de 2015

A CAMA

A cama
Zeneide Silva

Há muitos e muitos anos (parece até o início de um conto de fadas) li o livro A Cama, da grande escritora Lygia Bojunga. Achei uma obra belíssima por se tratar de sentimentos. Uma história em que a cama — antiga, de jacarandá, pesada, com entalhes na cabeceira e pés em forma de patas, exageradamente grande — é a personagem principal. Essa cama, com mais de 200 anos, símbolo do que restou de uma antiga situação de opulência, foi passada de pai para filho depois que a miséria atingiu a família, cuja matriarca lançou uma terrível maldição: a cama deveria permanecer na família sob pena de que recairiam grandes desgraças sobre aquele que se desfizesse dela.

Relendo trechos desse livro, comecei a pensar em minha primeira cama que, pelo que eu me lembre, era de lona verde e grossa, presa às madeiras em forma de x (xis) com presilhas. Depois, fui para uma cama normal, com colchão de capim, depois, de mola e espuma.

Para meu casamento, meu marido, Cau, que era marceneiro, resolveu fazer ele mesmo a nossa cama: projetou, comprou madeira nobre — cerejeira —, mandou tornear os pés e fez um trançado no espelho manualmente com talisca da mesma madeira e pronto, ficou linda! Casamos em maio de 1986 — há 28 anos — e nessa cama me tornei mulher, vivi momentos maravilhosos, mas também de tristeza, horas chorando, horas sorrindo, horas sentada, horas deitada e horas ao seu lado, de joelho, suplicando a misericórdia de Deus.

Como tudo na vida passa, e, se não for completo, o ciclo volta para você completar, acho que é o que vem acontecendo comigo em relação a essa cama.

Fiquei com a cama durante os primeiros 4 anos de casada, comprei uma nova casa para ficar mais próxima ao colégio o qual coordenava e dei a cama para papai e mamãe, que ficaram com ela durante 11 anos. Mamãe dormiu nela até o dia 10 de dezembro de 2009, dia anterior ao que foi internada, ficando na UTI até 8 de janeiro, dia em que faleceu. Acredito que também tenha passado por momentos bem marcantes. Com a morte dela, papai dormiu pouco tempo nessa cama. Dizia que sentia falta do toque do pé dela (acho isso lindo, o toque do pé). Para nós, casados, o toque do pé tem um significado muito bonito, o toque para, muitas vezes, fazer as pazes, um toque sem querer querendo.

Então, papai veio morar comigo, mas e a cama? O que fazer agora? Meu irmão, que morava com meus pais, ficou dormindo nessa cama, já que permaneceu na mesma casa após o falecimento de mamãe. Papai passou a morar comigo e, nas vezes que ia à casa dele, dormia nessa cama, apesar de não se sentir bem.

Três anos e sete meses depois do falecimento de mamãe, papai faleceu, em 2013. Meu irmão não quis ficar com a cama. “E agora? Quem ficará com ela?”, perguntei ao meu marido. “Nós” foi a sua resposta. Montamos uma casa para ser nosso refúgio de final de semana, colocamos nossa cama e começamos a viver intensamente nosso casamento, com alegrias e choros.

Acredito que a vida seja assim; temos que completar o ciclo, não podemos deixar lacunas, devemos expressar nossos sentimentos e viver intensamente cada momento.

Espero que uma das minhas filhas, Maria Clara e Ana Luiza, possa usufruir dessa cama; desejo bênçãos, e não maldição, como a matriarca do livro de Lygia Bojunga. Desejo que essa cama permaneça na família por várias gerações, que dure tanto quanto a cama citada por Lygia Bojunga em seu livro.

Refletindo sobre nossa prática como Educadoras e Educadores, não podemos nos esquecer de que nossos alunos irão passar por vários profissionais (como a cama), e se você não fechou seu ciclo com aquele aluno que mais precisou de você, um dia vocês irão se encontrar, mesmo que seja no banheiro de um aeroporto, como aconteceu comigo e uma ex-aluna (um dia eu conto).

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